Precisamos Falar Sobre o Ruído Em Hospitais (Como Reduzir)

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A área da saúde tem constantemente apresentado avanços em medicamentos, tratamentos de doenças e equipamentos com alta tecnologia associada. Contudo, surge a pergunta: os ambientes hospitalares têm acompanhado esta evolução para promover o conforto e melhor recuperação dos pacientes com a diminuição do ruído em hospitais?

Estes ambientes, como as Unidades de Terapia Intensiva (UTI), são locais destinados a cuidados intensivos para recuperação. Contudo, a internação pode gerar consequências variadas aos pacientes, visto que as situações estressantes são diversas, como a privação de visitas, a fragilidade emocional e física, a constante invasão por equipamentos e exames, a falta de autonomia ou controle sobre a situação e os elevados níveis de ruído nos hospitais.

Todo esse contexto leva muitos pacientes a relatarem incômodo constante e dificuldade de adaptação. A luta pela vida do paciente é julgada como mais importante que seu bem-estar momentâneo e submetê-lo a todos estes estressores não é visto como um problema, uma vez que a internação deve ser temporária e a cura da doença efetiva. Entretanto, na prática, não é tão simples.

Estudos realizados pelo Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da John Hopkins mostram que, apesar do sucesso do tratamento médico, muitos problemas podem acontecer em decorrência da própria internação, o que gerou uma maior atenção por parte dos profissionais de saúde ao ambiente hospitalar, à internação e suas consequências, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Problemas Durante a Internação

Durante o período de internação alguns dos principais problemas elencados nos estudos são: irritabilidade, cefaleia, elevação do batimento cardíaco e da pressão arterial, perda de atenção e o delirium, que é um estado confusional do paciente relacionado com aumento na mortalidade e comprometimento na recuperação funcional do mesmo.

Já após a internação, os principais problemas estão relacionados com o aparecimento e/ou agravamento de sintomas de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e problemas relacionados ao sono.

Ruído em Hospitais

Um dos fatores que agrava estes sintomas é o ruído em ambiente hospitalar, em termos de nível e de tipos aos quais o paciente é submetido. Pesquisas feitas em hospitais revelaram que os equipamentos para tratamento e a conversação entre a equipe hospitalar são os fatores ruidosos que mais incomodam os pacientes.

Nível Aceitável de Pressão Sonora

Em relação aos critérios de conforto acústico interno, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) recomenda níveis de pressão sonora equivalentes (LAeq) entre 35 a 45 dB como aceitáveis para diferentes ambientes hospitalares.

Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda nível equivalente de até 40 dB para o período diurno e de 35 dB para o período noturno nos leitos hospitalares. Segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Terapia Intensiva, o nível de ruído em ambiente hospitalar encontrado em UTIs, especificamente no período noturno, foi superior ao preconizado.

Outras investigações sobre o assunto confirmaram estes índices e apontam níveis de ruído que chegam a 89 dB, o que pode ser comparado a passagem de um caminhão acelerando.

Para o adequado condicionamento acústico em um hospital é necessário considerar a influência das diversas fontes sonoras atuantes, internas e externas, além das relações entre os ambientes e suas respectivas atividades. Uma vez que as fontes de ruído são identificadas, uma variedade de estratégias de mitigação pode ser empregada.

Característica dos Ruídos Emitidos

Além da análise quantitativa do ruído nos hospitais, é preciso considerar também as características dos ruídos emitidos, se existe caráter impulsivo, picos tonais e em quais frequências são predominantes. Estes fatores são importantes, já que a tolerância a ruídos impulsivos ou com componentes tonais como apitos, costuma ser muito menor que para ruídos de banda larga, como o ruído de chuva, por exemplo.

Efeitos das Fontes Sonoras

Os efeitos das fontes sonoras internas devem ser previstos e mitigados, como instalações de ar condicionado, equipamentos elétricos, bombas, elevadores, movimentação de usuários e equipe técnica, avisos sonoros, reações e falas dos pacientes e familiares.

A mudança de sistemas de chamada de enfermagem, assim como avisos de “silêncio!” ou “desligue o celular”, treinamentos para o comportamento da equipe médica e de enfermagem, além de tecnologias para mascarar o som são importantes para reduzir os fatores de perturbação desnecessários.

Sons Gerados pelos Aparelhos Destinados ao Tratamento

Os sons gerados pelos aparelhos destinados ao tratamento apresentam também conotação de perigo para os acompanhantes ou cuidadores. Para grande parte dos visitantes que não estão acostumados com a rotina de uma UTI, entrar em contato com apitos, luzes vermelhas e curvas de monitoramento pode ser muito aversivo.

Muitos acompanhantes se preocupam em excesso com os monitores e demais aparelhos e despendem grande parte da visita tentando entendê-los, o que deixa pouco tempo para contato com o paciente.

Apesar de incômodos, os alarmes sonoros são fundamentais para alertar a equipe médica e de enfermagem sobre ocorrências nas condições clínicas dos pacientes ou alterações no funcionamento dos aparelhos.

Estes avisos chamam a atenção dos intensivistas e a imediaticidade da resposta pode ser a diferença entre a vida e a morte em alguns casos, como em paradas cardíacas, por exemplo. Dessa forma, estes ambientes, que deveriam promover e facilitar a recuperação, tornam-se outro fator estressante, aumentando a ansiedade e a sensibilidade à dor, diminuindo o sono e prolongando o período de recuperação.

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)

Após a internação, diversos pacientes relatam ouvir os avisos sonoros dos aparelhos ou outros ruídos nos hospitais relacionados às máquinas da UTI, o que é um dos sintomas característicos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O número de pacientes que relatam sintomas de TEPT após internação em UTI varia de acordo com estudos na área.

Segundo estudo publicado no “The Lancet-Respiratory Medicine” esses números chegam a 7% dos pacientes após três meses de internação. Já em estudo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria o número de pacientes que relatam sintomas chega a 14,5%.

Ambos os estudos apresentam números maiores dos que os encontrados na população geral que, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª Ed) é de 3,5% entre adultos norte-americanos e entre 0,5 a 1% para países da Ásia, África e Europa e América Latina.

O aparecimento desses sintomas pode prejudicar a qualidade de vida dos pacientes após a alta, visto que estão relacionados a lembranças e experiências aversivas vividas durante esse período. Merecem destaque as experiências relacionadas à rotina da unidade (horários de exame, horários de medicação) e à condição da internação (dor, a invasão dos aparelhos e o medo constante da morte).

Foto: Dry- Air

Necessidade de Melhorias para o Ambiente Físico

Um olhar para a situação de internação evidencia necessidade de melhorias, inclusive para o ambiente físico. Para uma melhora acústica, por exemplo, é necessário que existam áreas mais silenciosas (p. ex. leitos).

Para que isso seja possível, muitos artifícios são viáveis: a utilização de materiais de construção específicos; o planejamento dos leitos e das UTIs em locais distantes de áreas ruidosas; o isolamento acústico para ruídos externos (avenidas movimentadas), entre outros.

Prevenção do Ruído em Hospitais

A prevenção do ruído também deve ter início antes da aquisição e instalação de equipamentos de tratamento, pois modificações posteriores podem ser mais onerosas e difíceis. Com o correto condicionamento acústico, portanto, há maior privacidade, inteligibilidade da fala e conforto para todos os envolvidos.

Com essas evidências fica claro que apenas o “barulhinho” de um aparelho ou uma conversa entre funcionários pode acarretar prejuízos significativos a curto (dificuldade com o sono), a médio (delirium e perda de atenção) e a longo prazo (como sintomas de TEPT) quando associados a outras questões da internação em UTI.

Isso implica em afirmar que um estímulo compreendido como inofensivo em um ambiente do dia a dia pode ser extremamente prejudicial a depender da situação e das circunstâncias.
Portanto, o ruído no ambiente de UTI, é um fator possivelmente modificável e que buscar possibilidades para a melhora dessa situação pode oferecer inúmeros benefícios para pacientes, acompanhantes e até mesmo equipe de saúde.

Mudanças pouco onerosas e potencialmente efetivas, como manipular alarmes dos aparelhos, promover treinamento para as equipes, planejar a distribuição dos ambientes no hospital, utilizar materiais que promovam adequado isolamento e condicionamento acústico interno, verificar os níveis de ruído dos equipamentos antes da sua aquisição e inserir avisos de “silêncio”, podem não apenas melhorar a qualidade de sono como também reduzir o risco para deliruim e outras patologias.

Foto Destaque: Domtotal

Autores:
Andrea Destefani
Arquiteta Urbanista formada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) com curso de extensão na Goldsmiths College (University of London). Mestre em Tecnologia na Construção de Edificações – Desempenho Acústico pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Sócia e Consultora Sênior na Ca2 Consultores Ambientais Associados.

Eduardo Santos Miyazaki
Psicólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina, com aprimoramento em Psicologia da Saúde pela Faculdade de Medicina de Rio Preto (FAMERP), Doutor em Ciências da Saúde (FAMERP). Atua como psicólogo analítico comportamental clínico e é responsável pelo setor de Cuidados Paliativos do Hospital de Base, professor de Psicologia pelo Centro Universitário de Rio Preto e professor no Instituto de Psicologia, Educação Comportamento e Saúde (IPECS).

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