Revista Arquitetura e Urbanismo – Janeiro 2017

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Artigo – Interseção Foster, Rogers, Piano e Nouvel e as experiências práticas em consultoria para projetos de alto desempenho ambiental
POR: MARCELO NUDEL. Edição 274 – Janeiro/2017

Por essas experiências pude compreender as razões pelas quais mesmo os grandes nomes da arquitetura mundial buscam consultoria nas áreas de sustentabilidade, conforto ambiental e eficiência energética para seus projetos.

CIÊNCIA DA ARQUITETURA– Os escritórios desses mestres não são autossuficientes. E eles sabem disso. Suas equipes são geralmente compostas de profissionais muito bem versados em conforto térmico, uso de materiais e técnicas passivas como ventilação ou iluminação natural. Com o aumento do rigor nas normas de desempenho energético e conforto térmico em seus países e na busca por edifícios cada vez mais eficientes, tornou-se fundamental a visão de um especialista que fosse capaz de, com alto nível de assertividade, tirar as estratégias ambientais do campo da intuição, trazendo as ideias à concretização e ao pleno funcionamento.

Esses arquitetos perceberam por tentativa e erro que o vento nem sempre segue a flecha que desenham no papel, ou que o sol de ângulo baixo de inverno nem sempre é tão inofensivo quanto se imagina. Fica claro que os fenômenos físicos que envolvem trocas de calor e energia em um edifício configuram-se por si só como uma ciência única e complexa, chamada nos países de língua inglesa de architectural science (ciência da arquitetura), ou também comumente chamada de building physics (física da edificação).

Architectural science ou building physics podem ser descritas como a coletânea de conhecimentos científicos focados na análise e controle de fenômenos físicos que afetam a arquitetura dos edifícios. Incluem tradicionalmente conhecimentos acerca de radiação solar, ventilação e iluminação natural, conforto térmico e estratégias passivas de controle ambiental. O propósito prático dessa ciência é fornecer previsões com base em experimentação, prevenindo falhas, reduzindo riscos e direcionando o projeto arquitetônico em busca de alto desempenho ambiental.

Em todos os projetos em que atuei como consultor, seguimos uma metodologia muito semelhante, a qual aplico até hoje em minha prática profissional. O processo se inicia com a compreensão das condicionantes de projeto estabelecidas pelo arquiteto.

O consultor precisa entender o que é imprescindível, o que é importante, o que é preferível e o que é indesejável no processo. Afinal, a autoria é do arquiteto, e suas diretrizes devem ser respeitadas.

Deve existir naturalmente, para o seu bom andamento, a compreensão por parte do arquiteto de que concessões em nome do desempenho ambiental do edifício poderão ser feitas.

Na sequência, exploram-se opções de desenho capazes de cumprir com as metas estabelecidas para eficiência energética, conforto ambiental e iluminação natural, além de questões como ventilação natural e controle de ofuscamento.

Por meio de análises técnicas e simulações computacionais podemos antever o futuro desempenho das edificações e quantificar os benefícios que cada estratégia de projeto irá trazer consigo.

Simulações computacionais paramétricas – quando se comparam opções de projeto – são utilizadas como ferramentas na tomada de decisão. Dessa forma, o arquiteto adquire confiança de que as estratégias conceituais pensadas originalmente possuem base científica e podem de fato funcionar.

Munidos de dados e resultados de experimentações, dá-se prosseguimento ao projeto, reduzindo riscos e produzindo eficiência e alto desempenho com o desenho arquitetônico. A arquitetura surge então como resposta natural às condicionantes climáticas e podemos assegurar o seu funcionamento na prática.

De maneira geral, os grandes escritórios de arquitetura com os quais trabalhei apresentam um surpreendente grau de flexibilidade na adaptação de seus projetos visando à sua melhoria. Compreendem bem a necessidade de concessões na concepção e as fazem desde que se comprove tecnicamente que trarão benefícios ao desempenho do edifício durante sua operação.

Não são aceitos “achismos”. É necessário alto rigor e precisão técnica. Esse processo funcionou particularmente bem nos projetos de Foster + Partners e Rogers Stirk Harbor + Partners, que se mostraram altamente comprometidos com o desempenho ambiental de seus edifícios ao submeter importantes decisões arquitetônicas aos resultados obtidos nas experimentações computacionais.

PLANEJAMENTO EM SUSTENTABILIDADE –Nos países onde a cultura da construção sustentável encontra-se em estágios mais maduros, compreende-se que os verdadeiros diferenciais dos edifícios de alto desempenho ambiental são provenientes da etapa de conceituação de projeto arquitetônico, sendo os elementos tecnológicos importantes, porém secundários.

No Brasil o mercado tem focado muito na adição de soluções tecnológicas e mecanizadas de forma a dotar os edifícios de um caráter mais sustentável.
Na prática, há uma tendência de se produzir uma arquitetura dissociada do clima e do meio natural e, em seguida, tentar torná-la mais sustentável adicionando itens de uma lista de tecnologias disponíveis na prateleira.

A larga aplicação de sistemas de certificação verde não altera – e em muitos casos estimula – essa problemática.

Nossa experiência indica que conceber uma proposta com a sustentabilidade em mente desde suas linhas iniciais no projeto de arquitetura é muito mais eficaz do que tentar adequar tecnologias a um projeto arquitetônico concebido de maneira convencional.

O desenho adequado da envoltória é parte fundamental desse processo e deve ser resultado não apenas do conceito arquitetônico ou com base em análise simplista de custo capital, mas fundamentalmente uma resposta direta às condicionantes climáticas que o circunda por meio de sólida base científica.

A incorporação de architectural scientists em projetos de arquitetura não deve ser – e de fato não é – restrita apenas aos grandes escritórios, nem tampouco a países desenvolvidos. Durante os seis anos que vivi na Austrália, participei de muitos projetos em escalas distintas e com escritórios de arquitetura de relevância regional, tais como FJMT Studio, BVN Architecture, Bates Smart Architects e Hassell Studio, entre outros.

No Brasil, pude implementar processos dessa natureza em importantes escritórios nacionais como Aflalo&Gasperini, Isay Weinfeld, L35 Acia e Perkins+Will em projetos de shopping centers, edifícios de escritório e em masterplans urbanísticos.

Munidos da mesma metodologia utilizada pelos grandes escritórios globais, elaboramos, por meio do projeto arquitetônico, soluções capazes de criar espaços que, ao mesmo tempo que contemplam a conservação ambiental, são também espaços vibrantes, capazes de encantar e de proporcionar ao usuário uma experiência mais saudável, mais confortável e com reduzido custo de operação.

MARCELO NUDEL é arquiteto, especialista em sustentabilidade, conforto ambiental e eficiência energética. Pós-graduado em sustainable architectural science pela Universidade de Sydney. Sócio-diretor da Cal Consultores Ambientais Associados (www.ca-2.com), empresa de consultoria e gestão de projetos sustentáveis, conforto ambiental e eficiência energética de edificações. Professor de cursos de pós- graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo. Atuou como consultor de sustentabilidade na Arup, empresa multinacional de engenharia e consultoria, nos escritórios de Sydney, Madri e São Paulo, assessorando equipes de arquitetos como Norman Foster, Richard Rogers, Renzo Piano e Jean Nouvel, além de importantes escritórios brasileiros na concepção de edifícios de alto desempenho ambiental

 

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